Ir para o Conteúdo da página Ir para o Menu da página

Observatório do Carvão

Atividade carbonífera e seus danos socioambientais em Santa Catarina

Novidades

13/04/2008 Santa Cruz decide hoje o seu futuro

Daqui um mês começa a colheita de feijão na comunidade de Santa Cruz em Içara.

Leandro Budni, 22 anos, espera vender 25 sacas por hectare. Com a valorização de um dos principais itens da cesta básica do brasileiro, pretende comercializar em até R$ 100 a saca.

O cuidado de Leandro com sua plantação, equivalente a quase sete campos de futebol, é o reflexo da preocupação de todos os agricultores da localidade. Neste domingo à noite, eles voltam a se reunir em assembléia para avaliar as propostas da instalação da mina de carvão da Carbonífera Rio Deserto.

Em Santa Cruz, predominam as plantações. Difícil encontrar uma residência que não tenha uma lavoura ao lado. Sem contar as nascentes. Cada morador tem no mínimo dois açudes e todos utilizam água de poço.

A conscientização em preservar o lençol freático vem desde o início da década de 80. Leandro nem tinha nascido, mas o vizinho Santos Matiola, 73 anos, lembra muito bem de quando foram orientados por técnicos da Fatma a mudar a economia local. A palavra de ordem: fechar todos os engenhos de farinha.

Foi quando souberam que o nível de água do lençol estava apenas 70 centímetros abaixo da superfície e não poderiam contaminar as nascentes com a água da mandioca. “Mais de 10 engenhos fecharam e aprendemos a substituir nosso sustento”, diz Matiola.

A decisão levou os agricultores a investir na plantação do fumo, principal renda até hoje, intercalada pela entressafra do feijão e milho. A partir deste ano, algumas famílias vão investir também em morangos.

O relato do agricultor muda de tom, contudo, quando o assunto é a instalação da mina, ao lado de sua casa. Ele ainda utiliza o poço que construiu quando nem tinha 20 anos de idade. “Daqui para frente não sei o que vou deixar para as futuras gerações", murmura num misto de revolta e resignação. "Minha preocupação é com a água, a mesma que nos anos 80 fez a gente mudar o rumo da economia daqui.“

Seu filho, Antônio, lembra que no ano passado 60 mil sacas de feijão saíram da localidade para o programa Fome Zero do Governo Federal. “Deveriam ver a duplicação da BR-101 como um avanço para a instalação de empresas ao invés de discutir a instalação de uma mina”, dispara.

Exemplo em Criciúma

Assim como dona Elvira, mãe de Antônio, Almerinda Tiscoski e Rosane Pires costumam dizer que a vida no local se tornou um inferno nos últimos cinco anos. No mês passado, as mais de 150 famílias que vivem da agricultura deixaram uma cruz de nove metros, feita de eucalipto, no local onde poderá sair a mina.

As cruzes colocadas em frente à prefeitura de Içara durante o tratoraço também foram transferidas para o local. Na comunidade, o maior incentivo para continuar a vida na agricultura vem de Criciúma. Os agricultores vêem no bairro Morro Estevão, envolvido em polêmica semelhante há 12 anos, um exemplo a ser seguido como área de proteção.

Fonte: Engeplus

Voltar

Grupo de Pesquisa Memória e Cultura do Carvão em Santa Catarina

Desenvolvimento Burn web.studio