O movimento dos agricultores da comunidade de Santa Cruz, em Içara, contrário à instalação de uma mina de extração de carvão naquela localidade, evidenciado com grande vigor nos últimos dois anos, representa um indicador importante na história da região carbonífera. Repetindo os mesmos passos de agricultores das localidades de Morro Estevão e Morro Albino, em Criciúma, em 1996, os içarenses mostraram que uma atividade econômica não pode ser definida somente pela parte empreendedora, caso tratar-se de atividade poluidora. Isso porque cabe à comunidade em geral, ciente dos seus direitos de cidadania, definir se quer ou não determinado empreendimento, para tornar-se co-corresponsável no futuro ante possíveis prejuízos ambientais.
Passou o tempo em que determinado projeto econômico dizia respeito apenas ao interesse da iniciativa privada. Numa época em que se pensava exclusivamente na geração de emprego e renda, o importante era garantir que ao final de cada mês o trabalhador tivesse um salário para garantir suas necessidades básicas e as de sua família. Logicamente, o empregador também teria garantido o seu lucro, assegurando o movimento da economia local. Percebeu-se, porém, que o processo produtivo trazia consigo uma série de implicações, dentre as quais, a alteração do meio ambiente, antes vista como um preço a se pagar, em nome do progresso.
Mas esse preço tornou-se muito oneroso. A degradação do solo, da água e do ar foi uma combinação que se mostrou muito mais danosa à sociedade do que as benesses advindas da atividade econômica (estas muito mais restritas aos empreendedores). Passaram-se décadas de exploração de carvão e, diante do enrijecimento das leis ambientais, medidas preventivas foram sendo incorporadas pelo setor de mineração, muito mais de forma reativa do que pró-ativa, buscando-se reduzir os danos ambientais. Processos de gestão ambiental passaram a fazer parte do dia-a-dia das empresas, num evento anunciado cotidianamente como forma de mostrar que a mineração já não polui tanto.
Entretanto, é sabido que diante de uma atividade tão agressiva ao meio ambiente – quem já percorreu o interior de uma mina, deve concordar com tal afirmação -, é praticamente impossível garantir que não haverá comprometimento dos lençóis freáticos, ou de nascentes de água, diante de um “comportamento” inesperado do solo, por exemplo. Além disso, a região ainda convive com um passivo ambiental cujo quadro vem sendo pouco alterado, nos mais de 6 mil hectares de solo degradado e 70% dos rios poluídos. Que não se ignore aqui gestos concretos de empresas que estão promovendo o tratamento da água antes de devolvê-la aos rios, minimizando o problema. Mas num período de extrema gravidade, quando são antevistos os custos do progresso tecnológico das últimas décadas com o fenômeno do aquecimento global, fica evidente que o desenvolvimento deve se orientar para um outro lado.
É o carvão, a exemplo de outros combustíveis fósseis como o petróleo, um dos vilões do efeito estufa, independentemente da boa vontade de empresários do setor carbonífero com a questão ambiental. Não fosse a região tão castigada (basta dar fazer um tour por Siderópolis, Treviso, Forquilhinha, Lauro Muller e interior de Criciúma, para comprovar), poderíamos imaginar que haveria mais tempo para o setor. Diante do quadro atual, no entanto, seria urgente a elaboração de um plano de desativação suficiente para que os empreendedores da área pudessem migrar para outras atividades, assegurando a sustentabilidade de seus novos negócios, bem como os necessários empregos. Países como a França já o fizeram, seguidos da Alemanha, que deve deixar de explorar carvão nos próximos anos. Afinal, precisamos mais do que emprego e renda para vivermos. Precisamos de um presente e do futuro com qualidade ambiental para os seres humanos, respeitando e preservando todas as formas de vida.
Zeca Virtuoso – jornalista, mestre em Ciências Ambientais, professor e pesquisador da Unesc.
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